“Aprecie o que está fazendo e seja excelente no que faz”
Não é fácil parar a agitação maluca da rotina para escutar o que nosso eu interior está dizendo. Vivemos, cada vez mais, em meio a um turbilhão de acontecimentos e em um ritmo frenético. E aqui surge a pergunta que não quer calar: até quando teremos tempo para continuar assim?
A ex-jornalista Cláudia Dias Baptista de Souza, conhecida como Coen Rōshi ou Monja Coen, soube o momento certo de mudar totalmente a sua vida. “Tive certeza quase aos 30 anos, quando iniciei práticas meditativas. Quando encontrei o Zen, imediatamente me identifiquei e decidi que iria entregar o que restasse da minha existência a esse caminho. Não houve nenhuma dúvida. Houve quem duvidasse à minha volta, mas, dentro de mim, a certeza já se havia instalado, e não foi difícil”, conta.
Palestrante e escritora, Monja Coen é um dos nomes mais conhecidos do Budismo no Brasil. Quem não conhece melhor a sua história não imagina que um dos símbolos mais concretos do que é viver em harmonia costumava ir de moto para a casa dos primos em São Paulo, e que usava músicas do Pink Floyd para meditar. Em entrevista à Revista Vitrola, ela lembra justamente a relação que teve, desde a infância, com o aparelho e seus significados.
— Quando um disco tinha defeito, a agulha ficava girando sempre no mesmo lugar e fazendo um ruído desagradável. A música cessava, a historinha infantil parava e só se ouvia um ruído desagradável. Nesses momentos era preciso delicadamente levantar a ponta da agulha de sobre o disco e, sutilmente, colocá-la no sulco seguinte. E, de repente, a música ou a historinha voltava a acontecer —, recorda.
A escritora compara essa proximidade entre o disco e a agulha à vida e à necessidade de fazer algo para que o movimento continue. “Na vida também há momentos que ficamos girando no mesmo lugar, a música já não mais acontece, os relacionamentos se tornam viciados e repetitivos, de forma cansativa e desgastante. São nesses momentos que precisamos sair da nossa área de conforto, levantar, ir mudar a agulha de lugar. Dar continuidade, restabelecer os contatos, restaurar os relacionamentos e situações que se partiram ou se perderam”, ensina.
Nada é mais certo do que a mudança
Com vários livros publicados e mais de um milhão de fãs e seguidores, a líder espiritual também mantém um canal no YouTube divulgando ensinamentos da comunidade Zen Budista. Um deles é a certeza de que as coisas mudam, e o mundo, nesse processo, pode ser algo melhor. “O mundo está sempre em transformação, sempre esteve. Passamos por estágios de desenvolvimento e crescimento, tanto físicos e mentais quanto espirituais. Seguindo o pensamento do historiador e autor do livro 21 lições para o século 21, Yuval Noah Harari, acredito que um futuro mais próspero, harmonioso e respeitoso para toda a humanidade está diretamente relacionado às práticas meditativas. O autoconhecimento, em profundidade, abre portais de percepção que podem nos tornar mais caridosos, gentis, respeitosos e capazes de compartilhar com mais equidade os bens comuns”, revela.
Como encontrar o equilíbrio?
Para Monja, o equilíbrio só existe porque há também o desequilíbrio, o que requer das pessoas a necessidade de se reequilibrar. “Se há falta de coisas materiais, vamos atrás destas como se fossem a solução para tudo, para todas as nossas carências. O resultado é que nem todas as nossas necessidades podem ser preenchidas com objetos, com fama, com fortuna e poderes. O vazio existencial é o pilar do autoconhecimento e da procura pela sabedoria perfeita. O equilíbrio deve ser procurado em momentos de silêncio e quietude. Quando podemos, por alguns instantes, não olhar para as mensagens nos celulares ou nos computadores. Não ligar televisão, rádio, músicas. Apenas estar presente, interagindo com tudo que existe. Respirando conscientemente. Nossa mente, assim como nosso corpo, precisa de pausas. Os intervalos que tornam a jornada mais rica”.
Como viver com pessoas e situações adversas?
Sobre situações complicadas, seja no trabalho ou na família, ou ainda com pessoas que não nos fazem bem, a escritora lembra que as pessoas interagem com formas de energia, que podem ser de afetos ou desafetos. Por isso, é importante entender por que algumas são desagradáveis, e outras, agradáveis. “Que aspectos de nós mesmos são revelados por pessoas ou situações que não nos fazem bem? Minimizamos os efeitos prejudiciais quando cultivamos sentimentos e valores benéficos. Vício significa ausência de virtude. Se praticarmos os Seis Paramitas, adentaremos à mente de equidade, nada que seja prejudicial poderá nos afetar por muito tempo. Será apenas como um sopro de passagem. Os Seis Paramitas ou Seis Perfeições são doação, vida ética, paciência, esforço correto, meditação e sabedoria.
Como encontrar nossa vocação?
Monja convida a refletir sobre o que nos dá mais prazer na existência para encontrar a resposta à pergunta. “O que mais agrada a você, estudar? Procure em si mesmo o que mais lhe parece interessante. “Você gosta de ler, de escrever? Gosta de filmes, TV? Prefere teatro ou ópera? Gosta de rock ou samba? Prefere estudar contabilidade, matemática, física, química ou ciências sociais e pedagogia? Não gosta de estudar e gosta de esportes? Prefere trabalhar com tarefas simples? Gosta de ter responsabilidades? Apenas observe quais assuntos, desde a infância, nas escolas, nos cursos, na vida, você sente alegria em participar, independentemente das notas. O que dá para fazer? Pesquisar, estudar, trabalhar? Cada um de nós é um ser único. Descobrir sua verdadeira vocação pode levar anos. Enquanto isso, aprecie o que está fazendo e seja excelente no que faz. Algumas vezes passamos a amar o que antes gostávamos. Basta tentar”, convida.
Ela também atua como palestrante, e vem sendo requisitada pelos mais diversos segmentos. “Pouco a pouco fui sendo cada vez mais solicitada a dar palestras em empresas, escolas, universidades, hospitais, ONGs, órgãos governamentais. Atendo o ser humano. Espero fazer com que todos os seres possam despertar para a sabedoria perfeita e a compaixão ilimitada, dessa forma, desenvolvendo a equanimidade em ações, palavras e pensamentos e construindo uma cultura de paz, respeito e harmonia por toda a Terra. Meu conselho: observem a si mesmos e a seus relacionamentos, e onde houver dificuldades, sorriam, mudem a agulha para o sulco seguinte e apreciem suas vidas. Não há bis, não há dois momentos iguais. Seja a transformação que quer no mundo.”
Colaboração: Márcia Sarmento